ar, areia

A minha vida é tanto mais literária quanto menos vezes tento explicá-la. É curioso como, só abandonando a narrativa, se chega ao centro da história, quero dizer, da nossa própria história. Cada vez mais, interessa-me a companhia dos que vêem a sua história como algo que ainda está para ser (e não que foi, e que foi de certa maneira, e que é como é por ter sido como foi). Não há, no que está para ser, promessa nem expectativa, não há plano nem projecto. O centro pode ser isso: estar aqui, sem culpar o passado nem cair na tentação de confiar no futuro. É possível que a vida não seja um percurso e que a imagem do caminho já não nos sirva. Viver, ter uma história, uma relação com o tempo, também passa por aprender a habitar um espaço amplo, sem trilhos – uma extensa porção de areia.

 

Continue Reading

a minha é mais comprida que a tua

Eu não percebo o que é que se passa, parece que agora toda a gente escreve com frases enormes, frases do tamanho de um comboio, frases maiores que a fila da processionária no início do inverno, frases que não acabam, que vão daqui ao fim do mundo, que atravessam o sistema solar, que são maiores que a via láctea, frases que são um tratado em apneia, ofegantes, intensas, desesperadas, e a cena é que isto é contagioso, eu própria às vezes escrevo assim, como se usar ponto final fosse tão grave quanto uma doença venérea, como se aquilo que tenho pra dizer fosse mesmo mesmo mesmo importante, como se fosse um grito, uma súplica, um chamem o 112 que eu não m’aguento, é tão difícil ficar imune ao estilo, logo eu que tenho ascendente em touro e sou vaidosa e gosto de parecer bonita, e que as minhas frases me façam parecer bonita, talvez resulte, talvez se eu não parar, se eu nunca usar um ponto, se eu ficar aqui até toda a gente adormecer – e eu sei que não adormecem porque isto é muito forte – talvez se eu resistir, se eu escrever como se fosse, sei lá, um dos bateristas dos PAUS, ou até os dois, talvez assim eu fique cada vez mais bonita, talvez fique tão bonita que me torno a mais bonita de todas, a mais bonita que alguma vez nasceu, e que não nasceu, talvez fique tão bonita que já nem preciso de escrever frases compridas e intensas, frases que expressam a profundidade e a complexidade da minha vida emocional e que dão ao meu texto aquela dimensão emotiva que falta nesta era tecnológica, e se eu não parar de escrever pode ser que em algum momento até escreva uma coisa boa, talvez me torne melhor pessoa, pior não fico, e mesmo que a minha frase não diga nada pode ser que seja dionisíaca e cheia de verdade, não daquela verdade chata que faz com que as pessoas discutam em vez de se enrolarem, mas da outra, a boa, a verdade que galopa, que dança, que aproxima, como não ter saudades dela, essa verdade que era Portishead num quarto no Cacém, a melhor amiga que pedia a senha antes de eu entrar, a to the k? e eu, lá de baixo, a to the mother fucking z, não sei se é assim que se escreve, a verdade não ia ver as letras à net, a verdade era uma amizade mais comprida que uma frase, que um intestino, que os fios do telefone ao longo de todo o município, e agora talvez alguém diga que estou a misturar assuntos, a divagar, mas não, isto está tudo ligado, se não como é que eu podia escrever uma frase tão comprida, como, como?

Continue Reading

The Bedside Book of Birds

Traduzir livros sobre pássaros, descobri recentemente, é super difícil. Para já, porque uma pessoa não conhece o nome da maior parte deles, nem sequer na sua própria língua, e depois porque, ao contrário dos pombos, dos patos da Gulbenkian e dos pardais, a grande maioria das aves tende a fazer vida em lugares pouco frequentados por palavras. Ora, dado que isto é conhaque, e não trabalho, pus-me a traduzir o do Manguel, um excerto do livro Stevenson Under The Palm Trees. Fiquei a saber quem é o Conde Fosco (pontos pra mim) e quase traduzia ‘steel-blue’ por azul-aço (azulaço, ihihih). Não fiquei contente com o resultado mas estou desconfiada que é o original que não é bom.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

____________________________________

CARDEAL

Do lado de fora da minha janela está um cardeal. Não há forma de escrever esta frase sem arrastar bibliotecas inteiras de alusões literárias. O caixilho da janela e as margens da página engaiolam o pássaro que serve como símbolo para qualquer pássaro, tal como qualquer pássaro serve de símbolo para uma qualquer ideia. A pomba de Noé, as gralhas de Macbeth, os cisnes de Horácio, os pombos de Omar Khayyam, o rouxinol de Teócrito, os canários do Conde Fosco não são aves mas usos, pássaros cujas penas são palavras e significados. O meu cardeal de cor simbólica e de nome simbólico sangra agora nesta página como há pouco no céu. Pergunto-me, corrompido pela leitura, se houve alguma vez um momento em que esta frase – do lado de fora da minha janela está um cardeal – não foi um artifício; um momento em que o pássaro vermelho-sangue numa árvore azul metalizado era uma surpresa silenciosa e em que nada me incitava a traduzi-lo, a domesticá-lo no interior de uma caixa de texto, tornando-me no seu taxidermista literário. Pergunto-me se houve algum momento em que o cardeal do lado de fora da minha janela esteve ali, no seu esplendor fulgurante, sem significar nada.

ALBERTO MANGUEL (1948– (ufa)), Argentina, Canadá

_____________________

 The Bedside Book of Birds é um aviário literário organizado por Graeme Gibson e inclui textos de autores tão variados como Ésquilo, Margaret Atwood, Isaiah Berlin, William Blake, Boswell e, tchanam, Fernando Pessoa. É claro que ainda não o li todo, tenho mais que fazer. Metade dos direitos de autor serão doados ao Observatório de Aves de Pelee Island (que é no Canadá, eu também não sabia).

Continue Reading