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Bom dia, não quer ajudar as crianças vítimas de violência doméstica? A banca estava montada na esplanada, à entrada do café. Sentei-me na mesa mais distante, a única ao sol, esse mesmo sol de quem por vezes se diz que faz mal. Mas não será a sombra a grande culpada? Não estará o sol a cumprir pena por um crime que não cometeu? O que é uma constipação? Ninguém sabe – como ninguém sabe se o café é mais forte se for curto ou cheio. Talvez porque seja irrelevante. Importante, sim, é usar um chapéu, vestir um casaco, beber o café como apetece. Saldos por todo o lado, os últimos, os agora é que são mesmo os últimos. Não me apetece ler. Em vez disso, observo a voluntária a cravar um cigarro a um desses aristocratas com excesso de peso que fazem ninho naquela zona da cidade. Ela diz que se esqueceu do maço em casa. Ele não ouve bem, eu preferia não ouvir. De cada vez que as portas do café se abrem, repete a mesma frase. Bom dia, não quer […]? Pergunto-me se terá lido a resposta na minha cara – porque é que se dirige a septuagenárias de muletas e a jovens de fato-macaco que saem a descascar o Marlboro, mas não a mim? Deve ser a este excesso interrogativo que a minha acupunctora se refere quando diz que tenho o yin e o yang lixados – não consigo descansar. Seis pares de meias a seis euros. Cinquenta por cento de desconto. Que pena não precisar de nada, perder assim as grandes oportunidades desta vida. Não queres ver os meus óculos de sol? Olhei-a, eu própria de óculos de sol. Não te assustaste, disse-me, como quem constata um facto agradável. És nova. As velhas daqui são racistas. Sorri com a contenção própria de uma transacção comercial indesejada e disse-lhe que não precisava de óculos de sol. E uma carteira? Também não. Queres que te leia a sina? Eu dou sorte, as pessoas dizem que eu dou sorte.

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super ego free

Há vários anos que uso o gravador do telemóvel como uma espécie de bloco de notas instantâneo, um arquivo das horas mortas. Andam no meu bolso, diariamente, as ideias que tive a meio da noite para trabalhos, as letras de canções que me ocorreram enquanto passeava pelo pinhal, bocados de conversas com amigos, parcerias musicais via WhatsApp, entrevistas para projectos inacabados, excertos de noites no Damas, bocados de jantares em casas onde nunca mais voltei – tudo isso vivo e pronto a reverberar de novo, queira eu premir o play.   

Encontrar num caderno antigo a fotografia que arranquei da parede quando me separei ou pesquisar “cristina branco” no e-mail e ir parar à troca de mensagens com o namorado de 2007, é tão perturbador como assistir ao meu próprio velório. Para mim, a fotografia é a forma mais rápida de aceder à melancolia. Estás a ver isto? Acabou. Para sempre. Nunca mais vai acontecer. Gone. For ever. Já foste. Cada uma, um instante perdido. Em fotografia, não há alegria que não me deixe triste. O mesmo não acontece com o som. De cada vez que nos ouço a rir, é como se ainda nos estivéssemos a rir. Hoje, a vários quilómetros de distância, e ainda assim aqui, na minha cozinha, às gargalhadas. Vivos.

Ao contrário dos diários que arrasto de casa em casa, e que detesto reler, tenho pelas minhas gravações a maior estima. Enquanto os cadernos são registos de segunda ordem, reflexivos, de uma sinceridade deslocada e em esforço, as gravações são sempre instantâneas, na primeira pessoa, e para público nenhum. Os textos, mesmo num caderno que ninguém vai abrir, dirigem-se a alguém. As gravações são experiências, jogos, happenings de consulta rápida, para consumo imediato, super ego free. E justamente porque são mais vivas, estão também menos sujeitas aos efeitos do tempo. 

O barulho dos meus pensamentos silencia o mundo. Num dia bom, a minha cabeça é free jazz. No resto do tempo é só noise. Há um bebé a chorar no espaço público das minhas ideias. Para ouvir, o primeiro requisito é estar calado. E estar calado não é só estar em silêncio – é estar a ouvir! Por estranho que pareça, ouvir é uma actividade que exige descontracção e, assim, se queremos mesmo estar concentrados, o melhor é relaxar. O desejo de ouvir dificulta o acto de ouvir. Não é curioso? Parece um conto zen.

Tenho a impressão que a audição é o verdadeiro elixir da vida eterna. Ouvir é uma coisa que demora, que prolonga. Talvez o tempo do som esteja mais afinado com o tempo do corpo – talvez o corpo não consiga acompanhar o tempo do pensamento. Não sei. O que sei é que de cada vez que me ponho à escuta, a minha vida amplifica-se, expande-se e põe-se a durar.

Mas há também outro fenómeno, que é aquilo que o som oculta ou transforma, e que é tão evidente no cinema como no jantar romântico. O som enquanto batotice. O som que dá à cena a força que ela não tem. O som que inspira o terror que não há. O som que plastifica, que engrossa, que tempera. Que incomoda. E, claro, o som da filosofia hip-hop. 

O som não morre, viva o som!

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voz off

Não sei de onde veio e não creio que se tenha ido embora, a voz que me diz: não podes. Não posso sequer dizer que tenho tentado contrariá-la. Não posso dizer nada. E depois há uns momentos em que ela se distrai, ou se cansa de me vigiar, ou vai à casa de banho – e eu tento. Nessas alturas, escrevo com o thrill de quem invade uma propriedade para roubar roupa cara, ou como o perv cujo prazer inocente é mostrar a pila à criançada e fugir. Há a sensação do crime, o medo do castigo e a atracção pelo abismo (que, bem vistas as coisas, não é maior do que aquele degrauzinho de plástico que os putos usam para chegar ao lavatório mas, enfim, a cada um a sua vertigem). Em cenário de guerra, eu seria o sniper que não consegue decidir se o inimigo vive fora ou dentro de si. E a cena não é que eu esteja sem munição, ou whatever. É mais como se as minhas balas fossem de ouro – embora, em boa verdade, eu só jogue a feijões. Ou então é só aquilo que a Rosalina me disse há dois anos, ainda eu não tinha lido o Cossery no campismo onde não chegou a haver amor (ou sexo, para que conste): tornei-me preguiçosa. É que, de há uns anos a esta parte, tudo o que faço redunda em para quê? Como seria se um cão de repente percebesse que tem dentes? Tenho que ir, ela vem aí.

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