a minha é mais comprida que a tua

Eu não percebo o que é que se passa, parece que agora toda a gente escreve com frases enormes, frases do tamanho de um comboio, frases maiores que a fila da processionária no início do inverno, frases que não acabam, que vão daqui ao fim do mundo, que atravessam o sistema solar, que são maiores que a via láctea, frases que são um tratado em apneia, ofegantes, intensas, desesperadas, e a cena é que isto é contagioso, eu própria às vezes escrevo assim, como se usar ponto final fosse tão grave quanto uma doença venérea, como se aquilo que tenho pra dizer fosse mesmo mesmo mesmo importante, como se fosse um grito, uma súplica, um chamem o 112 que eu não m’aguento, é tão difícil ficar imune ao estilo, logo eu que tenho ascendente em touro e sou vaidosa e gosto de parecer bonita, e que as minhas frases me façam parecer bonita, talvez resulte, talvez se eu não parar, se eu nunca usar um ponto, se eu ficar aqui até toda a gente adormecer – e eu sei que não adormecem porque isto é muito forte – talvez se eu resistir, se eu escrever como se fosse, sei lá, um dos bateristas dos PAUS, ou até os dois, talvez assim eu fique cada vez mais bonita, talvez fique tão bonita que me torno a mais bonita de todas, a mais bonita que alguma vez nasceu, e que não nasceu, talvez fique tão bonita que já nem preciso de escrever frases compridas e intensas, frases que expressam a profundidade e a complexidade da minha vida emocional e que dão ao meu texto aquela dimensão emotiva que falta nesta era tecnológica, e se eu não parar de escrever pode ser que em algum momento até escreva uma coisa boa, talvez me torne melhor pessoa, pior não fico, e mesmo que a minha frase não diga nada pode ser que seja dionisíaca e cheia de verdade, não daquela verdade chata que faz com que as pessoas discutam em vez de se enrolarem, mas da outra, a boa, a verdade que galopa, que dança, que aproxima, como não ter saudades dela, essa verdade que era Portishead num quarto no Cacém, a melhor amiga que pedia a senha antes de eu entrar, a to the k? e eu, lá de baixo, a to the mother fucking z, não sei se é assim que se escreve, a verdade não ia ver as letras à net, a verdade era uma amizade mais comprida que uma frase, que um intestino, que os fios do telefone ao longo de todo o município, e agora talvez alguém diga que estou a misturar assuntos, a divagar, mas não, isto está tudo ligado, se não como é que eu podia escrever uma frase tão comprida, como, como?

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The Bedside Book of Birds

Traduzir livros sobre pássaros, descobri recentemente, é super difícil. Para já, porque uma pessoa não conhece o nome da maior parte deles, nem sequer na sua própria língua, e depois porque, ao contrário dos pombos, dos patos da Gulbenkian e dos pardais, a grande maioria das aves tende a fazer vida em lugares pouco frequentados por palavras. Ora, dado que isto é conhaque, e não trabalho, pus-me a traduzir o do Manguel, um excerto do livro Stevenson Under The Palm Trees. Fiquei a saber quem é o Conde Fosco (pontos pra mim) e quase traduzia ‘steel-blue’ por azul-aço (azulaço, ihihih). Não fiquei contente com o resultado mas estou desconfiada que é o original que não é bom.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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CARDEAL

Do lado de fora da minha janela está um cardeal. Não há forma de escrever esta frase sem arrastar bibliotecas inteiras de alusões literárias. O caixilho da janela e as margens da página engaiolam o pássaro que serve como símbolo para qualquer pássaro, tal como qualquer pássaro serve de símbolo para uma qualquer ideia. A pomba de Noé, as gralhas de Macbeth, os cisnes de Horácio, os pombos de Omar Khayyam, o rouxinol de Teócrito, os canários do Conde Fosco não são aves mas usos, pássaros cujas penas são palavras e significados. O meu cardeal de cor simbólica e de nome simbólico sangra agora nesta página como há pouco no céu. Pergunto-me, corrompido pela leitura, se houve alguma vez um momento em que esta frase – do lado de fora da minha janela está um cardeal – não foi um artifício; um momento em que o pássaro vermelho-sangue numa árvore azul metalizado era uma surpresa silenciosa e em que nada me incitava a traduzi-lo, a domesticá-lo no interior de uma caixa de texto, tornando-me no seu taxidermista literário. Pergunto-me se houve algum momento em que o cardeal do lado de fora da minha janela esteve ali, no seu esplendor fulgurante, sem significar nada.

ALBERTO MANGUEL (1948– (ufa)), Argentina, Canadá

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 The Bedside Book of Birds é um aviário literário organizado por Graeme Gibson e inclui textos de autores tão variados como Ésquilo, Margaret Atwood, Isaiah Berlin, William Blake, Boswell e, tchanam, Fernando Pessoa. É claro que ainda não o li todo, tenho mais que fazer. Metade dos direitos de autor serão doados ao Observatório de Aves de Pelee Island (que é no Canadá, eu também não sabia).

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A Vida e as Opiniões de Catarina Barros

 

A minha relação com A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy começa com uma conversa com uma pianista argentina e acaba comigo de cócoras a mijar no meio do mato. Em 2013, conheci uma tipa extraordinária que lia como poucos, isto é, com aquela pica obsessiva-compulsiva muito pra lá da narrativa e que passa por coisas tão peculiares como ler 4 traduções do Ulysses para ver qual é que é a melhor. Foi ela quem me falou do Laurence Sterne, da importância do Tristram Shandy para o que veio a ser a arte do romance e de todas essas coisas que nos fazem desejar um livro e, porém, continuar sem dinheiro para o comprar (deixasses de fumar). Ora, embora não seja novo para mim o conceito de biblioteca pública, a verdade é que nunca sou eu quem escolhe os livros de ficção que vai ler, antes o acaso, pondo-me diante daquilo que desejo sem saber ou dando-me a desejar aquilo que só muito remotamente quis.

Na sexta-feira calhou alguém ter de ir à biblioteca, eu ter de esperar, ter-me lembrado de ir à procura de mais um livro da Agatha Christie para o meu filho, a secção dos policiais ficar por baixo do S-Z da literatura estrangeira, estar lá o Sterne e eu achar (sem perder muito tempo a reflectir sobre isso) que era oportuno ler uma obra de dois volumes, pese embora o volume da minha vida. Eu olhei para o Sterne, o Sterne olhou pra mim, nenhum de nós suspeitou do evento trágico de que esse encontro era só o primeiro momento, e entrega até dia 20, se precisar de renovar basta telefonar.

O meu casaco tem bolsos largos. E, por isso, para além do livro, guardei um caderno, a carteira, o telemóvel, uma caneta preta (boa para canhotos, dizia na embalagem), o tabaco de enrolar, a chave do carro e um isqueiro. Nada fazia prever o que ia acontecer dentro de minutos e, tendo em conta que uso o mesmo casaco há oito anos sem nunca ter sido vítima de nenhum tipo de acidente (o pelo de gato não é acidental, é preguiça), estava longe de imaginar a fragilidade da minha indumentária, o risco que representava, o perigo em que me punha.
Perto do sítio onde vivo há uma praia fluvial onde gosto de me sentar a ler. É um sítio porreiro, deserto e onde os dados do telemóvel não prosperam. O leitor de CD só cuspiu a Billie Holiday à quarta música, já eu ia em Braços, a dois minutos do meu destino. Achei que algum silêncio não me faria mal. Há pessoas que, perante tamanha extensão de água, ficam cheias de sede. Eu, não. A necessidade que me acometeu só pedia um ligeiro grau de fricalhice (ou de escuteirismo), nada que pudesse competir com aquilo que já vi ser feito entre dois carros numa zona chique de Carcavelos e, à excepção de umas coisas que se dizem sobre lagartixas, nem sequer tinha que me preocupar com a vida selvagem do local (dado que humana só a minha, e até isso é discutível).

O que uma pessoa não espera quando está a urinar de cócoras no topo de uma encosta é ver o Tristram Shandy às cambalhotas, entre tojo e silvas, em direcção à água até ao mergulho final. Uma pessoa não espera ver um livro escrito no século XVIII cair do bolso XXL de um casaco e ser levado pela corrente. Por mais que se conheçam pranchas, piratas e mulheres ao mar, ninguém nos prepara para o momento em que não chegámos a ler o livro que requisitámos – e que agora vamos ter de pagar. E o pior é que não posso sequer alegar inocência: há muito que o Henry Miller me fez saber dos malefícios de  Ler na Retrete.

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