sem vergonha

  1. Li uma entrevista onde a Tatiana diz que quando uma ideia não tem força para manter o interesse dela vivo, a abandona. Quanto a mim, não tenho a certeza se sou em que abandono as ideias ou se são elas que me abandonam a mim.
  2. Não acho que esteja a mentir quando explico ao Pedro que nunca quis ser escritora e que esse ideal (mais do que possibilidade) me foi sugerido pelo mundo. Nunca escrevi para ser alguma coisa – escrevo, isso sim, e desde sempre, para falar com todos [os meus amigos] ao mesmo tempo. 
  3. O ouvido colectivo a quem destino cada post não é anónimo nem ideal. Escrevo para as pessoas com quem converso.  
  4. Neste momento, nem isso. Não estou a falar com ninguém. Não tenho qualquer recado. Estou a organizar as ideias. Em público, sim, mas isso é porque sou uma exibicionista sem vergonha. 

 

Continue Reading

queremos tudo

Havia, em casa do Miguel, um postal que dizia “queremos tudo” – ou estarei a fazer confusão? Foi há muito tempo e nessa altura eu não queria mais do que já tinha. Voltei a pensar nisso no México, depois do francês me perguntar se sou greedy: ávida, gananciosa, gulosa, voraz, insaciável, lambona. Ó, sim, eu quero tudo, só ainda não percebi como dar forma (uma única forma) ao múltiplo. Devia ser fácil, dado que é essa a natureza de tudo, ou de cada um. Uma explosão é, apesar de tudo, uma. Mas será que ela se vê assim?

Continue Reading

diários de motocicleta

O corpo torna tudo mais evidente. A experiência física é a melhor analogia. O medo concreto (que se manifesta no estômago, nos braços, nos ombros e na boca) e a cadeia de eventos que se lhe seguem são metáforas mais poderosas que qualquer teoria.

Continue Reading

ar, areia

A minha vida é tanto mais literária quanto menos vezes tento explicá-la. É curioso como, só abandonando a narrativa, se chega ao centro da história, quero dizer, da nossa própria história. Cada vez mais, interessa-me a companhia dos que vêem a sua história como algo que ainda está para ser (e não que foi, e que foi de certa maneira, e que é como é por ter sido como foi). Não há, no que está para ser, promessa nem expectativa, não há plano nem projecto. O centro pode ser isso: estar aqui, sem culpar o passado nem cair na tentação de confiar no futuro. É possível que a vida não seja um percurso e que a imagem do caminho já não nos sirva. Viver, ter uma história, uma relação com o tempo, também passa por aprender a habitar um espaço amplo, sem trilhos – uma extensa porção de areia.

 

Continue Reading