A Vida e as Opiniões de Catarina Barros

 

A minha relação com A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy começa com uma conversa com uma pianista argentina e acaba comigo de cócoras a mijar no meio do mato. Em 2013, conheci uma tipa extraordinária que lia como poucos, isto é, com aquela pica obsessiva-compulsiva muito pra lá da narrativa e que passa por coisas tão peculiares como ler 4 traduções do Ulysses para ver qual é que é a melhor. Foi ela quem me falou do Laurence Sterne, da importância do Tristram Shandy para o que veio a ser a arte do romance e de todas essas coisas que nos fazem desejar um livro e, porém, continuar sem dinheiro para o comprar (deixasses de fumar). Ora, embora não seja novo para mim o conceito de biblioteca pública, a verdade é que nunca sou eu quem escolhe os livros de ficção que vai ler, antes o acaso, pondo-me diante daquilo que desejo sem saber ou dando-me a desejar aquilo que só muito remotamente quis.

Na sexta-feira calhou alguém ter de ir à biblioteca, eu ter de esperar, ter-me lembrado de ir à procura de mais um livro da Agatha Christie para o meu filho, a secção dos policiais ficar por baixo do S-Z da literatura estrangeira, estar lá o Sterne e eu achar (sem perder muito tempo a reflectir sobre isso) que era oportuno ler uma obra de dois volumes, pese embora o volume da minha vida. Eu olhei para o Sterne, o Sterne olhou pra mim, nenhum de nós suspeitou do evento trágico de que esse encontro era só o primeiro momento, e entrega até dia 20, se precisar de renovar basta telefonar.

O meu casaco tem bolsos largos. E, por isso, para além do livro, guardei um caderno, a carteira, o telemóvel, uma caneta preta (boa para canhotos, dizia na embalagem), o tabaco de enrolar, a chave do carro e um isqueiro. Nada fazia prever o que ia acontecer dentro de minutos e, tendo em conta que uso o mesmo casaco há oito anos sem nunca ter sido vítima de nenhum tipo de acidente (o pelo de gato não é acidental, é preguiça), estava longe de imaginar a fragilidade da minha indumentária, o risco que representava, o perigo em que me punha.
Perto do sítio onde vivo há uma praia fluvial onde gosto de me sentar a ler. É um sítio porreiro, deserto e onde os dados do telemóvel não prosperam. O leitor de CD só cuspiu a Billie Holiday à quarta música, já eu ia em Braços, a dois minutos do meu destino. Achei que algum silêncio não me faria mal. Há pessoas que, perante tamanha extensão de água, ficam cheias de sede. Eu, não. A necessidade que me acometeu só pedia um ligeiro grau de fricalhice (ou de escuteirismo), nada que pudesse competir com aquilo que já vi ser feito entre dois carros numa zona chique de Carcavelos e, à excepção de umas coisas que se dizem sobre lagartixas, nem sequer tinha que me preocupar com a vida selvagem do local (dado que humana só a minha, e até isso é discutível).

O que uma pessoa não espera quando está a urinar de cócoras no topo de uma encosta é ver o Tristram Shandy às cambalhotas, entre tojo e silvas, em direcção à água até ao mergulho final. Uma pessoa não espera ver um livro escrito no século XVIII cair do bolso XXL de um casaco e ser levado pela corrente. Por mais que se conheçam pranchas, piratas e mulheres ao mar, ninguém nos prepara para o momento em que não chegámos a ler o livro que requisitámos – e que agora vamos ter de pagar. E o pior é que não posso sequer alegar inocência: há muito que o Henry Miller me fez saber dos malefícios de  Ler na Retrete.