The Bedside Book of Birds

Traduzir livros sobre pássaros, descobri recentemente, é super difícil. Para já, porque uma pessoa não conhece o nome da maior parte deles, nem sequer na sua própria língua, e depois porque, ao contrário dos pombos, dos patos da Gulbenkian e dos pardais, a grande maioria das aves tende a fazer vida em lugares pouco frequentados por palavras. Ora, dado que isto é conhaque, e não trabalho, pus-me a traduzir o do Manguel, um excerto do livro Stevenson Under The Palm Trees. Fiquei a saber quem é o Conde Fosco (pontos pra mim) e quase traduzia ‘steel-blue’ por azul-aço (azulaço, ihihih). Não fiquei contente com o resultado mas estou desconfiada que é o original que não é bom.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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CARDEAL

Do lado de fora da minha janela está um cardeal. Não há forma de escrever esta frase sem arrastar bibliotecas inteiras de alusões literárias. O caixilho da janela e as margens da página engaiolam o pássaro que serve como símbolo para qualquer pássaro, tal como qualquer pássaro serve de símbolo para uma qualquer ideia. A pomba de Noé, as gralhas de Macbeth, os cisnes de Horácio, os pombos de Omar Khayyam, o rouxinol de Teócrito, os canários do Conde Fosco não são aves mas usos, pássaros cujas penas são palavras e significados. O meu cardeal de cor simbólica e de nome simbólico sangra agora nesta página como há pouco no céu. Pergunto-me, corrompido pela leitura, se houve alguma vez um momento em que esta frase – do lado de fora da minha janela está um cardeal – não foi um artifício; um momento em que o pássaro vermelho-sangue numa árvore azul metalizado era uma surpresa silenciosa e em que nada me incitava a traduzi-lo, a domesticá-lo no interior de uma caixa de texto, tornando-me no seu taxidermista literário. Pergunto-me se houve algum momento em que o cardeal do lado de fora da minha janela esteve ali, no seu esplendor fulgurante, sem significar nada.

ALBERTO MANGUEL (1948– (ufa)), Argentina, Canadá

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 The Bedside Book of Birds é um aviário literário organizado por Graeme Gibson e inclui textos de autores tão variados como Ésquilo, Margaret Atwood, Isaiah Berlin, William Blake, Boswell e, tchanam, Fernando Pessoa. É claro que ainda não o li todo, tenho mais que fazer. Metade dos direitos de autor serão doados ao Observatório de Aves de Pelee Island (que é no Canadá, eu também não sabia).