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Bom dia, não quer ajudar as crianças vítimas de violência doméstica? A banca estava montada na esplanada, à entrada do café. Sentei-me na mesa mais distante, a única ao sol, esse mesmo sol de quem por vezes se diz que faz mal. Mas não será a sombra a grande culpada? Não estará o sol a cumprir pena por um crime que não cometeu? O que é uma constipação? Ninguém sabe – como ninguém sabe se o café é mais forte se for curto ou cheio. Talvez porque seja irrelevante. Importante, sim, é usar um chapéu, vestir um casaco, beber o café como apetece. Saldos por todo o lado, os últimos, os agora é que são mesmo os últimos. Não me apetece ler. Em vez disso, observo a voluntária a cravar um cigarro a um desses aristocratas com excesso de peso que fazem ninho naquela zona da cidade. Ela diz que se esqueceu do maço em casa. Ele não ouve bem, eu preferia não ouvir. De cada vez que as portas do café se abrem, repete a mesma frase. Bom dia, não quer […]? Pergunto-me se terá lido a resposta na minha cara – porque é que se dirige a septuagenárias de muletas e a jovens de fato-macaco que saem a descascar o Marlboro, mas não a mim? Deve ser a este excesso interrogativo que a minha acupunctora se refere quando diz que tenho o yin e o yang lixados – não consigo descansar. Seis pares de meias a seis euros. Cinquenta por cento de desconto. Que pena não precisar de nada, perder assim as grandes oportunidades desta vida. Não queres ver os meus óculos de sol? Olhei-a, eu própria de óculos de sol. Não te assustaste, disse-me, como quem constata um facto agradável. És nova. As velhas daqui são racistas. Sorri com a contenção própria de uma transacção comercial indesejada e disse-lhe que não precisava de óculos de sol. E uma carteira? Também não. Queres que te leia a sina? Eu dou sorte, as pessoas dizem que eu dou sorte.

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