Plant-Thinking : A Philosophy of Vegetal Life

Descobri este livro por acaso no centro de documentação da minha universidade. Acontece-me, sobretudo quando estou cheia de trabalho, sentir como que um chamamento de certo corredor, como se uma determinada estante chamasse pelo meu nome, ou como se a própria necessidade de concentração quisesse lembrar-me que há mais, muito mais, do que esse assuntozinho de que me ocupo e que é sempre excessivo, sempre maior do que o tempo que me foi dado, sempre mais complexo e impossível de tratar. Nessas ocasiões, claro, acabo por ir bater com o nariz numa lombada e, logo, tenho de ler isto, tenho mesmo de ler isto, como é que eu não sabia disto? O que não significa, evidentemente, que eu vá mesmo ler isto.

One-library stands à parte, a verdade é que há livros com os quais se tem vontade de começar qualquer coisa mais séria – e este é um deles. Não estando certa da importância que virá a ter no meu percurso académico, já me trouxe um conjunto de ideias, pistas e referências que têm configurado a minha utilização do Youtube. É um começo. Deixo-vos uma pequena apresentação, a partir dos apontamentos que tirei da Introdução. Não é, portanto, uma crítica. Mais para a frente, quando tiver terminado a leitura e já souber tudo sobre a ontologia vegetal e o pensamento das plantas, espalharei a palavra.

“A PLANTA ALIMENTARÁ A MENTE QUE CONTEMPLA O DESABROCHAR DA SUA FLOR” (LUCE IRIGARAY)

Partindo de uma ideia de descentramento metafísico do humano (há muito evidente, por exemplo, na defesa dos direitos dos animais), o ponto de partida e propósito desta obra é o de um alargamento do escopo da ética que considere os modos de ser de todos os seres vivos, em particular daqueles que têm sido considerados insignificantes: as plantas. De acordo com Marder, desde a Modernidade que a vida vegetal, entregue primeiro aos cuidados dos botânicos e, mais tarde, dos biólogos, raramente tem sido problematizada pela Filosofia. Deste abandono decorre, por exemplo, a crença de que a existência das plantas é menos desenvolvida (que a dos animais e a dos seres humanos) e que, por conseguinte, pode ser explorada. Perante esta negligência ética, a proposta de Marder passa por dar uma nova proeminência à vida vegetal e também por “escrutinar as pressuposições acrí­ticas através das quais esta vida tem sido até agora explicada”.

O encontro com as plantas parece tratar-se de um desencontro. Se, por um lado, as árvores, arbustos e canteiros das nossas cidades levam uma existência de pano de fundo, isto é, de invisibilidade, por outro, nos campos de cultivo, o que nelas se vê é apenas o seu uso (que é também a nossa perspectiva enquanto consumidores). A atitude estética, por sua parte, tem pelo menos a vantagem de ser a única abordagem não-violenta (de que é particularmente exemplar o Doing Nothing Garden de Song Dong). Pondo de parte o nominalismo, que apenas coloca a planta num esquema classificatório, e o conceptualismo hegeliano, que faz da flor viva um momento de transição para o fruto numa teleologia que justifica a sua instrumentalização, apenas a fenomenologia hermenêutica, o desconstrutivismo e o “pensamento fraco” são, para Marder, recursos capazes de “reduzir, minimizar, apagar, colocar entre parêntesis as barreiras reais e ideais que os seres humanos erigiram entre si e as plantas”. Trata-se de deixar os seres ser, de não embarcar em generalizações e de pôr “o pensamento ao serviço da vida finita”. Embora se reconheça que as filosofias não-ocidentais e feministas têm sabido encontrar afinidades entre a subjectividade receptiva e a vida vegetal, é sobre as abordagens da metafísica ocidental, sobre a negligência e crise ambiental resultante dessa negligência que este livro tratará.

[to be continued]

Plant-Thinking: A Philosophy of Vegetal Life (New York: Columbia University Press, 2013) com prefácio de Gianni Vattimo e Santiago Zabala. + info sobre o autor aqui.

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