super ego free

Há vários anos que uso o gravador do telemóvel como uma espécie de bloco de notas instantâneo, um arquivo das horas mortas. Andam no meu bolso, diariamente, as ideias que tive a meio da noite para trabalhos, as letras de canções que me ocorreram enquanto passeava pelo pinhal, bocados de conversas com amigos, parcerias musicais via WhatsApp, entrevistas para projectos inacabados, excertos de noites no Damas, bocados de jantares em casas onde nunca mais voltei – tudo isso vivo e pronto a reverberar de novo, queira eu premir o play.   

Encontrar num caderno antigo a fotografia que arranquei da parede quando me separei ou pesquisar “cristina branco” no e-mail e ir parar à troca de mensagens com o namorado de 2007, é tão perturbador como assistir ao meu próprio velório. Para mim, a fotografia é a forma mais rápida de aceder à melancolia. Estás a ver isto? Acabou. Para sempre. Nunca mais vai acontecer. Gone. For ever. Já foste. Cada uma, um instante perdido. Em fotografia, não há alegria que não me deixe triste. O mesmo não acontece com o som. De cada vez que nos ouço a rir, é como se ainda nos estivéssemos a rir. Hoje, a vários quilómetros de distância, e ainda assim aqui, na minha cozinha, às gargalhadas. Vivos.

Ao contrário dos diários que arrasto de casa em casa, e que detesto reler, tenho pelas minhas gravações a maior estima. Enquanto os cadernos são registos de segunda ordem, reflexivos, de uma sinceridade deslocada e em esforço, as gravações são sempre instantâneas, na primeira pessoa, e para público nenhum. Os textos, mesmo num caderno que ninguém vai abrir, dirigem-se a alguém. As gravações são experiências, jogos, happenings de consulta rápida, para consumo imediato, super ego free. E justamente porque são mais vivas, estão também menos sujeitas aos efeitos do tempo. 

O barulho dos meus pensamentos silencia o mundo. Num dia bom, a minha cabeça é free jazz. No resto do tempo é só noise. Há um bebé a chorar no espaço público das minhas ideias. Para ouvir, o primeiro requisito é estar calado. E estar calado não é só estar em silêncio – é estar a ouvir! Por estranho que pareça, ouvir é uma actividade que exige descontracção e, assim, se queremos mesmo estar concentrados, o melhor é relaxar. O desejo de ouvir dificulta o acto de ouvir. Não é curioso? Parece um conto zen.

Tenho a impressão que a audição é o verdadeiro elixir da vida eterna. Ouvir é uma coisa que demora, que prolonga. Talvez o tempo do som esteja mais afinado com o tempo do corpo – talvez o corpo não consiga acompanhar o tempo do pensamento. Não sei. O que sei é que de cada vez que me ponho à escuta, a minha vida amplifica-se, expande-se e põe-se a durar.

Mas há também outro fenómeno, que é aquilo que o som oculta ou transforma, e que é tão evidente no cinema como no jantar romântico. O som enquanto batotice. O som que dá à cena a força que ela não tem. O som que inspira o terror que não há. O som que plastifica, que engrossa, que tempera. Que incomoda. E, claro, o som da filosofia hip-hop. 

O som não morre, viva o som!

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voz off

Não sei de onde veio e não creio que se tenha ido embora, a voz que me diz: não podes. Não posso sequer dizer que tenho tentado contrariá-la. Não posso dizer nada. E depois há uns momentos em que ela se distrai, ou se cansa de me vigiar, ou vai à casa de banho – e eu tento. Nessas alturas, escrevo com o thrill de quem invade uma propriedade para roubar roupa cara, ou como o perv cujo prazer inocente é mostrar a pila à criançada e fugir. Há a sensação do crime, o medo do castigo e a atracção pelo abismo (que, bem vistas as coisas, não é maior do que aquele degrauzinho de plástico que os putos usam para chegar ao lavatório mas, enfim, a cada um a sua vertigem). Em cenário de guerra, eu seria o sniper que não consegue decidir se o inimigo vive fora ou dentro de si. E a cena não é que eu esteja sem munição, ou whatever. É mais como se as minhas balas fossem de ouro – embora, em boa verdade, eu só jogue a feijões. Ou então é só aquilo que a Rosalina me disse há dois anos, ainda eu não tinha lido o Cossery no campismo onde não chegou a haver amor (ou sexo, para que conste): tornei-me preguiçosa. É que, de há uns anos a esta parte, tudo o que faço redunda em para quê? Como seria se um cão de repente percebesse que tem dentes? Tenho que ir, ela vem aí.

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sem vergonha

  1. Li uma entrevista onde a Tatiana diz que quando uma ideia não tem força para manter o interesse dela vivo, a abandona. Quanto a mim, não tenho a certeza se sou em que abandono as ideias ou se são elas que me abandonam a mim.
  2. Não acho que esteja a mentir quando explico ao Pedro que nunca quis ser escritora e que esse ideal (mais do que possibilidade) me foi sugerido pelo mundo. Nunca escrevi para ser alguma coisa – escrevo, isso sim, e desde sempre, para falar com todos [os meus amigos] ao mesmo tempo. 
  3. O ouvido colectivo a quem destino cada post não é anónimo nem ideal. Escrevo para as pessoas com quem converso.  
  4. Neste momento, nem isso. Não estou a falar com ninguém. Não tenho qualquer recado. Estou a organizar as ideias. Em público, sim, mas isso é porque sou uma exibicionista sem vergonha. 

 

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queremos tudo

Havia, em casa do Miguel, um postal que dizia “queremos tudo” – ou estarei a fazer confusão? Foi há muito tempo e nessa altura eu não queria mais do que já tinha. Voltei a pensar nisso no México, depois do francês me perguntar se sou greedy: ávida, gananciosa, gulosa, voraz, insaciável, lambona. Ó, sim, eu quero tudo, só ainda não percebi como dar forma (uma única forma) ao múltiplo. Devia ser fácil, dado que é essa a natureza de tudo, ou de cada um. Uma explosão é, apesar de tudo, uma. Mas será que ela se vê assim?

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