fuinha

Estou a escrever sobre fantasmas, ruídos estranhos, manchas, sombras, medos, pesadelos. Sobre coisas que te expulsam de casa, que não te dão descanso, que não consegues ignorar. Estou a reflectir sobre casas inteligentes, aplicações de encontros, carros que conduzem sozinhos, soluções fáceis. Interessa-me a inutilidade da estatística, da inteligência, da computação, quando aquilo que enfrentas, aquilo que te assombra e que te tira o sono não pode ser medido. Tem a ver com ciúmes e infidelidade. São coisas monstruosas. Começa com um conjunto de pistas. Tufos de pelo, restos de bagas, coisas danificadas. É tudo ignorado, integrado, aceite. A mínima intuição do que aquilo possa ser é rejeitada. Pensar nisso – assumir que se pensa nisso – é como aceitar uma espécie de superstição. Não podes desconfiar, não podes dizer. Seria um indício de fraqueza. Não queres nomear aquilo porque sabes que só há dois caminhos: o da profecia que se auto-realiza e o da loucura. Se tiveres razão, é uma merda, se não tiveres razão, também é uma merda. Está tudo ali, há uma parte de ti que já sabe mas, para efeitos de sobrevivência, decides-te pela cegueira. Enganas-te porque não queres que uma parte da tua vida morra. É por teres consciência da morte, e porque o teu corpo não sabe o que fazer com isso, que te manténs naquela posição desagradável. Imagina que convives com uma serpente que ocupa um lugar diminuto, praticamente invisível, no teu quotidiano. Ou um rato. Ou uma barata. Tu sabes que nenhum desses animais te quer fazer mal – nenhum está contra ti, não é uma coisa pessoal. Vale a pena confrontar uma coisa com a qual podes conviver? Tem que ser uma ameaça? Tens que matar? A minha personagem está a passar mal porque não sabe nomear os animais – é uma coisa que traz consigo, que arrasta para todo o lado. O que é cómico é que uma coisa que está efectivamente a acontecer transforma-se em paranóia – e por isso é muito mais doloroso e violento, tudo. Ela convence-se que é tudo da cabeça dela porque não pode assumir que é real – essa confirmação parece-lhe inaceitável, muito pior que a miséria em que se encontra. Ela prefere desmoronar-se sozinha. Até certo ponto, claro. Porque o que acontece é que tudo aumenta, as pistas tornam-se sinais gritantes, evidências, provas. Quando o animal ganha nome, o mundo é transformado. Existe uma pessoa – outra pessoa – e ela não consegue conviver com a diferença entre si e a outra. Dedica-se à comparação, decide que perdeu. Compete com o monstro, entrega-se à sombra, fica fascinada com aquela desgraça toda. É como se tivesse à espera daquilo. O terror torna-se desejo realizado. Ela só precisava daquilo, para… Bom, não sei bem para quê. O animal real – existente, manifesto – não é o verdadeira animal. O corpo só processa o que ele próprio produz, só reage ao que tem par. Porque é que havia de ser diferente com a consciência? Ela vai percebendo isto muito lentamente.   

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