Cartas 1941-1943

Quão escandalosa, chanfrada e doentia pode ser uma amizade com um morto? Ou será abusivo chamar amizade à relação que estabelecemos com um autor? Como distinguir o que nos liga a uns e outros? Por exemplo, com o Nuno Bragança tenho uma cena tórrida mas da Llansol sou só pen friend. Com a Simone Weil desenvolvi uma irmandade embirrenta: acho-a brilhante mas tenho vontade de a salvar de si própria, como a uma irmã mais nova (imagine-se). À Arendt calhou ser a mais velha, meio irmã, meio mãe: uma irmãe. E o Salinger? Coro só de o encontrar na sala (o avô Whitman protege-me sempre destes tipos sinistros cujo ascendente tende mais a bloquear do que a fazer cantar). Quanto à Etty Hillesum, bom, é a minha melhor amiga. Quero dizer, a minha melhor amiga morta.

__________________________________________________________________

“Depois desta noite houve um momento em que senti seriamente que, de futuro, seria pecado voltar alguma vez a rir. Mas lembrei-me então de que, não obstante, alguns haviam partido a rir, apenas alguns, desta vez. E talvez haja também quem ria de vez em quando na Polónia…”

 

__________________________________________________________________

Publicadas em 2009 pela Assírio&Alvim (tradução de Ana Leonor Duarte e Patrícia Couto), as Cartas parecem ter vendido menos que o Diário, editado por cá um ano antes. Encontrei-as numa papelaria a metade do preço, entre promessas de bestseller que não foram assim tão best e um monte de nhecos cuja impressão roça o crime ecológico. Suponho que o menor interesse neste livro não tenha decorrido de outra coisa que não a cronologia da publicação (neste tempos de size matters, a maior parte dos leitores prefere diversificar do que aprofundar), mas também pode ter sido porque o Diárioé de tal forma bom que uma pessoa não tem vontade de ler mais nada.

__________________________________________________________________

Último postal de Etty Hillesum, atirado do comboio com destino a Auschwitz a 7 de Setembro de 1943. Este postal, escrito a lápis, foi encontrado ao pé da linha do caminho-de-ferro e enviado uma semana depois.

“(…) Estou sentada em cima da minha mochila, no meio de um vagão cheio. O pai, a mãe e o Misha estão uns vagões mais à frente. A partida acabou por chegar inesperadamente. De ordens repentinas de Haia, especialmente para nós. Deixámos o campo a cantar, o pai e a mãe firmes e calmos, tal como o Misha. (…) Até à vista, de nós os quatro.”

__________________________________________________________________

Enquanto no Diário acompanhamos o crescimento espiritual de uma mulher, nas Cartas vemos como Etty concilia o inconciliável: pedidos práticos e reflexões filosóficas. Aqui, a escrita já não tem aquela lentidão da descoberta de si, é antes rápida e urgente, em luta com a incógnita de cada dia, de cada semana, de cada comboio. Mas, porque Etty é Etty, seja nas ruas de Amesterdão ou num campo de concentração em Westerbork, há nas suas cartas uma preocupação constante com uma descrição justa da sua experiência e o distanciamento, de uma lucidez chocante, de uma historiadora. Estas cartas não são lamentações, não são queixas, não são as últimas palavras de um condenado – embora também sejam tudo isso. O que é verdadeiramente impressionante, pelo menos para mim, é a convivência de uma radical consciência (do momento presente) com o modo como se decide a vivê-lo: tornando-se um pilar, um apoio, um alívio. Tudo isto sem nunca se mostrar sobrecarregada, pelo menos de modo insuportável, e sem se sentir sacrificada. Não resulta desta leitura nenhuma espécie de optimismo e, muito menos, uma apologia do sacrifício. Etty não se rende ao inimigo, não se oferece à morte, não baixa os braços. Pelo contrário, tudo nela é vivo e em favor da vida. O que há é uma espécie de inteligência que lhe permite ver, com a máxima clareza, o seu campo de acção.

CARTAS 1941-1943, Etty Hillesum, Assírio & Alvim, 2009

Continue Reading

Plant-Thinking : A Philosophy of Vegetal Life

Descobri este livro por acaso no centro de documentação da minha universidade. Acontece-me, sobretudo quando estou cheia de trabalho, sentir como que um chamamento de certo corredor, como se uma determinada estante chamasse pelo meu nome, ou como se a própria necessidade de concentração quisesse lembrar-me que há mais, muito mais, do que esse assuntozinho de que me ocupo e que é sempre excessivo, sempre maior do que o tempo que me foi dado, sempre mais complexo e impossível de tratar. Nessas ocasiões, claro, acabo por ir bater com o nariz numa lombada e, logo, tenho de ler isto, tenho mesmo de ler isto, como é que eu não sabia disto? O que não significa, evidentemente, que eu vá mesmo ler isto.

One-library stands à parte, a verdade é que há livros com os quais se tem vontade de começar qualquer coisa mais séria – e este é um deles. Não estando certa da importância que virá a ter no meu percurso académico, já me trouxe um conjunto de ideias, pistas e referências que têm configurado a minha utilização do Youtube. É um começo. Deixo-vos uma pequena apresentação, a partir dos apontamentos que tirei da Introdução. Não é, portanto, uma crítica. Mais para a frente, quando tiver terminado a leitura e já souber tudo sobre a ontologia vegetal e o pensamento das plantas, espalharei a palavra.

“A PLANTA ALIMENTARÁ A MENTE QUE CONTEMPLA O DESABROCHAR DA SUA FLOR” (LUCE IRIGARAY)

Partindo de uma ideia de descentramento metafísico do humano (há muito evidente, por exemplo, na defesa dos direitos dos animais), o ponto de partida e propósito desta obra é o de um alargamento do escopo da ética que considere os modos de ser de todos os seres vivos, em particular daqueles que têm sido considerados insignificantes: as plantas. De acordo com Marder, desde a Modernidade que a vida vegetal, entregue primeiro aos cuidados dos botânicos e, mais tarde, dos biólogos, raramente tem sido problematizada pela Filosofia. Deste abandono decorre, por exemplo, a crença de que a existência das plantas é menos desenvolvida (que a dos animais e a dos seres humanos) e que, por conseguinte, pode ser explorada. Perante esta negligência ética, a proposta de Marder passa por dar uma nova proeminência à vida vegetal e também por “escrutinar as pressuposições acrí­ticas através das quais esta vida tem sido até agora explicada”.

O encontro com as plantas parece tratar-se de um desencontro. Se, por um lado, as árvores, arbustos e canteiros das nossas cidades levam uma existência de pano de fundo, isto é, de invisibilidade, por outro, nos campos de cultivo, o que nelas se vê é apenas o seu uso (que é também a nossa perspectiva enquanto consumidores). A atitude estética, por sua parte, tem pelo menos a vantagem de ser a única abordagem não-violenta (de que é particularmente exemplar o Doing Nothing Garden de Song Dong). Pondo de parte o nominalismo, que apenas coloca a planta num esquema classificatório, e o conceptualismo hegeliano, que faz da flor viva um momento de transição para o fruto numa teleologia que justifica a sua instrumentalização, apenas a fenomenologia hermenêutica, o desconstrutivismo e o “pensamento fraco” são, para Marder, recursos capazes de “reduzir, minimizar, apagar, colocar entre parêntesis as barreiras reais e ideais que os seres humanos erigiram entre si e as plantas”. Trata-se de deixar os seres ser, de não embarcar em generalizações e de pôr “o pensamento ao serviço da vida finita”. Embora se reconheça que as filosofias não-ocidentais e feministas têm sabido encontrar afinidades entre a subjectividade receptiva e a vida vegetal, é sobre as abordagens da metafísica ocidental, sobre a negligência e crise ambiental resultante dessa negligência que este livro tratará.

[to be continued]

Plant-Thinking: A Philosophy of Vegetal Life (New York: Columbia University Press, 2013) com prefácio de Gianni Vattimo e Santiago Zabala. + info sobre o autor aqui.

Continue Reading