rainha do loop

Começa com uma cena parva, passada na praia, meio verdadeira, meio falsa. Começa por ter tudo que ver com a narrativa e acaba por ser apenas forma. O problema, digo. Há que decidir sobre a pessoa, primeira ou terceira, eu ou ela, mas não consigo, não soa bem. Pelo meio, outras questões: memória e sentido, por exemplo, para além de pudor e deboche. Classes, categorias. Inventário de acusações imaginárias, críticas, juízos desfavoráveis, silêncio embaraçoso. 

Não fica nada por fazer, quanto a isso estou segura, mais que não seja porque já disse tudo, só não o estruturei. 

Começa com uma cena parva, passada na praia, não sei bem quando. Talvez não tenha sido sequer na praia – talvez tenha sido em casa, na realidade, e na praia, na imaginação. Às vezes ouvimos coisas que nos transportam para outros lugares e esta pode muito bem ser uma dessas coisas. Fui de um lugar a outro a partir de um desafio filosófico, de um thought experiment, e nunca mais de lá voltei.  

Começa por ser uma indecisão – eu ou ela? – e logo se torna em imprecisão. O texto deixa-me doente, prefiro falar em voz alta, de preferência para um público variado. Acho ridícula, toda esta gravitas, como acho ridículo chorar, sofrer e sentir compaixão. Quando alguma dessas coisas se manifesta em mim, ou ameaça, dá-me vontade de rir. Digo: quem é que tu queres enganar? 

Começa por ser uma questão ética: posso mentir? Posso fingir que a cena na praia é a manhã inaugural de uma demanda a que simultaneamente fui destinada e expulsa? Posso falar deste reality kick onírico cujo sentido se mantém velado, todo imagem? 

Eu sei circular. Acho que sou mesmo boa a circular. Chamem-me rainha do loop. 

Preciso sempre de um interlocutor. Não quero armar-me em Llansol, não tenho grande cabeça, não me chego para fechar o circuito. Imagino para mim uma cabeça que pergunta e responde, uma cabeça que é nascente e foz, que acolhe grutas e poços, uma cabeça-paisagem. A minha, no entanto, ainda nem tirou o pijama. Estou cheia de eclipses, não me acompanho. 

Começa com um caso sério. Se o trato com seriedade, dá-me vontade de rir. Se o trato como uma comédia, sinto que estou a aldrabar. Não sou a primeira a falar a verdade a mentir. 

You may also like

69