voz off

Não sei de onde veio e não creio que se tenha ido embora, a voz que me diz: não podes. Não posso sequer dizer que tenho tentado contrariá-la. Não posso dizer nada. E depois há uns momentos em que ela se distrai, ou se cansa de me vigiar, ou vai à casa de banho – e eu tento. Nessas alturas, escrevo com o thrill de quem invade uma propriedade para roubar roupa cara, ou como o perv cujo prazer inocente é mostrar a pila à criançada e fugir. Há a sensação do crime, o medo do castigo e a atracção pelo abismo (que, bem vistas as coisas, não é maior do que aquele degrauzinho de plástico que os putos usam para chegar ao lavatório mas, enfim, a cada um a sua vertigem). Em cenário de guerra, eu seria o sniper que não consegue decidir se o inimigo vive fora ou dentro de si. E a cena não é que eu esteja sem munição, ou whatever. É mais como se as minhas balas fossem de ouro – embora, em boa verdade, eu só jogue a feijões. Ou então é só aquilo que a Rosalina me disse há dois anos, ainda eu não tinha lido o Cossery no campismo onde não chegou a haver amor (ou sexo, para que conste): tornei-me preguiçosa. É que, de há uns anos a esta parte, tudo o que faço redunda em para quê? Como seria se um cão de repente percebesse que tem dentes? Tenho que ir, ela vem aí.

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